por Omar Mahmoud*Machado de Assis figura com destaque na minha lista de autores excelentes. Claro que outros nomes, de não menor importância, fazem companhia ao grande mestre, mas, dedico-lhe um apreço especial, quase que um carinho, um mimo, uma atenção fraternal a este ícone de nossa literatura. Sou tão fã do homem, que o denominei “Pena das três gerações”. O apelido é meu mesmo, mas, se quiserem usar, fiquem à vontade. Mas, por que três gerações? Porque Machado, olha quanta intimidade, é um autor para ser lido em três épocas de nossas vidas. E assevero isso com base em fundamentos quase científicos. Tomemos como exemplo sua grande obra Dom Casmurro. Na juventude, nossa opinião sobre Capitu oscilaria entre “gostosa e tesuda e eu queria ficar com ela”. Já na idade adulta, aquela em que me encontro momentaneamente, a opinião seria “como aquela vagabunda pode me trair com meu melhor amigo”. No inverno de nossas vidas, muito provavelmente, se estivéssemos sozinhos, diríamos “como sinto sua falta, mesmo ela tendo feito o que fez”. Percebem, porque digo que Machado, mais intimidade, é um autor de três gerações. Porque os homens mudam, pelo menos é o que aparentam externamente e, junto com eles, suas opiniões. O mesmo acontece com o público feminino. Na juventude, elas poderiam dizer “prefiro um gatinho sarado”. Na idade madura “gosto de homens mais discretos” e, chafurdando a mesma neve do inverno masculino “ah! Que saudades do meu velho”. Quer dizer, a pena de Machado, mais íntimo ainda, tanto dá “no Chico como no Francisco”, assim como, “na Chica e na Francisca”. Mas, deixando de lado os cornos de Bentinho, que a estas horas já se decompuseram e, muito provavelmente, se transformaram em petróleo, lá embaixo na camada do pré-sal, quero falar de outra grande realização literária do meu amigo Machadão. Agora extrapolei. Até parece conversa de botequim – Então Machadão, vamos tomar a saideira? Nem sei se ele bebia, mas, se o fazia, não o condeno, afinal, foi um sofredor e, ao invés de brindar o mundo com uma avalanche de reclamações, preferiu deixar-nos um legado de pura sapiência literária. Este é o Machadão! Mato aquele, que ousar dizer, que ele era, quando muito, uma machadinha. Machado era de ferro, de aço, de titânio e seu golpe, ainda que realizado com uma pena, abriu sulcos sempiternos nas gerações de escritores que o procederam. Mas, falava eu, de outra obra, sim aquela famosíssima “O Alienista”. Esta, da mesma forma, percorre a linha do tempo encontrando seu lugar nas três gerações. Na juventude diríamos “aquele cara está louco, eu sou normal”. Já na idade adulta “nunca tive nenhum tipo de problema, sempre fui perfeito”. E, novamente, entre as neves de nossa passagem “bom se minha família não me quer, então é melhor eu ir para lá”. Acontece, que eu trouxe em lume esta segunda obra, não para apresentar minhas opiniões ao longo de gerações, mas, para tentar ressuscitar aquele personagem que tanto fez pelo povo da cidade de Itaguaí, o diretor da Casa Verde, Simão Bacamarte. Grande Simão. Via a loucura ou, desconexos em quase tudo. Um andar diferente e pronto, vai para Casa Verde. Um olhar meio torto e mais um. Um elogio exacerbado e tome outro. E assim, de loucos em loucos, Simão foi enchendo a Casa, até causar um rebuliço danado na cidade, um esboço de revolução, a queda temporária dos integrantes da Câmara local e a implantação de um governo provisório. Mais adiante, tudo volta à sua normalidade e o grande doutor, liberta todos os loucos e acha mesmo que os verdadeiros loucos, são aqueles que agem de maneira normal. Quer dizer, os loucos são os não loucos. A loucura deve estar na razão. Se não me falha a memória, alguém se valeu desta proposição, para criar a famosa alcunha do “maluco beleza”. Finalmente, depois de tantas voltas, cheguei no âmago da questão. Nosso governo e seus protagonistas. Quem pensou que eu estava escrevendo sobre literatura acaba de se decepcionar.
Meu objetivo é a política ou, a razão dela ou, melhor ainda, a loucura dela. Por isso, fecho meus olhos e fico exercitando o poder de minha mente, no sentido de fazer valer aquela passagem bíblica: “Levanta-te Simão Bacamarte”. Mas por que esta minha obsessão pelo doutor caçador de loucos? Muito simples, porque nos dias de hoje, o Senado, em particular, vive seus momentos de Itaguaí e, ninguém melhor do que o grande Bacamarte, para colocar ordem na casa ou, para mandar alguns para a Casa Verde. Fico imaginando, o grande doutor, ostentando o seu impecável jaleco branco, seus pequenos óculos redondos (não sei se os usava, mas, a magia da leitura é esta, imaginamos os personagens da maneira que queremos) passeando por Brasília. De repente, se depara, com um deputado, que construiu um castelo, de fazer inveja ao “Neverland”, no meio do nada e ele, consegue, justificar que o construiu com o suor de seu trabalho. Doutor Simão, com toda sua educação, diria que este cidadão sofre de “canalhicis agudis” e o remeteria a Casa Verde. Mais adiante, encontraria um diretor do senado, que afirma ter esquecido de declarar à Receita Federal uma mansão no valor de R$ 5 milhões, o doutor classificaria esta moléstia como “mentirius exorbitantus” e lá vai mais um para a Casa. Um pouco mais a frente, toparia com uma leva de 182 outros diretores, todos jurando em unissonância que não são parentes de ninguém. Imediatamente seriam encaminhados à Casa com suspeita de “nepotismus descaradus”. Não muito longe dali, cruza com outro senador, que teve suas contas e, a pensão de sua ex-esposa pagas por uma empreiteira. Jura este parlamentar que os proventos são oriundos da venda de algumas cabeças de gado, O doutor não perde tempo e o interna com uma observação “gadus empreiteirus loucus rarus”.
Doutor Simão parece feliz com sua empreitada, pois, acredita ter encontrado o foco da peste que se instalou em nosso país “corruptionus descontroladis” e segue em sua saga. Alguns gabinetes mais adiante, encontra um senador, que emprestou o celular do senado para sua filha, que viajou ao México e, como desculpa, afirmou que o fez por preocupação com a segurança da mesma. Doutor Bacamarte muito calmamente lhe garante que não é nada grave, mas, recomenda um período de descanso na Casa Verde até que passem as suspeitas de “caradepaus semvergonhus”. O grande cientista não imaginava quão rica seria sua visita àquele local infestado pelas mais inusitadas moléstias e, acreditava que já havia recolhido todos os tipos de loucos possíveis, até que, passando em frente à porta de um grande gabinete, ouviu lá de dentro uma voz rouca que dizia: “Nunca antes neste país, vou construir 1 milhão de casas, vou estatizar o FMI, vou manter o Battisti aqui no Brasil”. Dispensa dizer o horror que tomou conta do pobre doutor. Finalmente, havia encontrado a célula-mãe de onde todos aqueles problemas se originaram. Retirou os apontamentos de seu jaleco e, desesperadamente, buscou qualquer indício sobre aquela moléstia. Nada, tudo em vão, estava ele de frente a algo totalmente inédito, poder-se-ia dizer que se tratava de um novo vírus, algo que estudado poderia lhe render, quem sabe, até um prêmio Nobel. O problema era como justificar aquela internação. Qual o termo que lhe dou? Pensou, pensou e, então, concluiu que estava diante de um exemplo de “megalomaniacus engodus palanqueirus”. O problema, era levá-lo até a Casa Verde. Não arriscaria simplesmente convidá-lo, poderia escapar, nem tentaria usar de força, pois, ele poderia contar com a proteção de guarda-costas.
Foi então, que lhe surgiu aquela brilhante idéia. Ajeitou o jaleco, arrumou os cabelos, endireitou os óculos e entrou no gabinete: Senhor, o estamos aguardando para inaugurar a Casa Verde, o palanque está pronto e o público o espera. A resposta foi imediata: Só vou até o banheiro e te encontro lá na rampa! Nunca mais a Casa Verde foi o que era antes.
* Omar Mahmoud é Consultor de Negócios Internacionais, 27 anos de experiência na área, mais de 65 países visitados no desenvolvimento de novos negócios e novos mercados.
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